poderia criar amargura por causa da coleção de ex-namorados que ando deixando pra trás.
mas aí é que tá, não é tudo que fica para trás. as qualidades melhores de cada um deles juntas são um grande privilégio vivo, que não foi embora com os fins e está aqui comigo. os defeitos piores de cada um, juntos, são uma oportunidade absurda de aprender coisas às vezes até muito, muito sutis. mas essenciais.
isso tudo me faz companhia todos os dias, mas sempre mesmo.
mas é bem verdade que, aparentemente, sou um pouco viciada nessa sensação de fechamento, de um certo alívio, de missão cumprida que dá quando se termina o namoro na hora certa, do jeito certo. tudo o que acontece depois é um grande barato, mesmo a perda. acho que estive a domar essa sensação, preparar o terreno, durante os relacionamentos e nos intervalos entre um e outro. de modo que, agora, a dorzinha solta-se aos poucos. bem rente ao chão...
pode ser também que eu tenha escolhido, sem perceber, pessoas que não oferecem muito conforto emocional, para não me perder do caminho.
acontece um pouco de dar medo de nunca conseguir escolher um companheiro pra resto de vida. e seria um desperdício, nossa, nem eu mesma sabia que já era tão capaz de ser uma bruta companheira quanto fui no último. não sei até que ponto isso é necessário, já que posso ter várias companhias amigas. mas é a tal coisa, se não fosse algo bem natural do ser humano, não aconteceria de as pessoas buscarem, enfim, de algumas realmente se apoiarem até a morte.
talvez uma parte disso seja ter feito um esforço muito constante de diversificação pessoal. ter criado um vocabulário extenso de gostos e potenciais, de visões e paisagens, de tudo, isso parece difícil de corresponder em uma pessoa.
vai ver sou um monstrinho a criar um frankenstein imaginário feito de pedaços reais.
rs...
e, ainda, acho que sou mais interessante e mais centrada sozinha. mais atenta às coisas que tanto amo e celebro aqui neste blog-falatório (natureza, céu, peripatéticas, música, etc); ou estou dizendo isso porque simplesmente estou sob o efeito do tal barato de que falei e esqueci momentaneamente dos momentos de cumplicidade e carinho e aconchego. é, agora, não sei. parece distante demais, então, enquanto isso, nadamos eu e frank neste oceano de microondas.
sábado, 1 de abril de 2006
quinta-feira, 30 de março de 2006
mas sabe, só agora que o fiz percebo que sempre quis ter um post com esse título abaixo.
aproveitando as good vibes, vou postar a letra de uma música aqui em homenagem a uma pessoa muito peculiar e querida.
ah, antes quero dizer que é de fato impressionante o número de pessoas peculiares e queridas que já conheci na vida. é um privilégio e agradeço todos os dias. não falo por falar. se juntar todas essas pessoas, diga-se que eu amo um ser mais-do-que-extraordinário. obrigada, queridos, por fazerem parte desse gigante de amor no meu coração.
agora chega de rasgação de seda.
com a palavra, mr. donny hathaway:
Someday We'll All Be Free
Hang on to the world as it spins around
Just don't let the spin get you down
Things are moving fast, Hold on tight and you will last
Keep your self respect, your manly pride
Get yourself in gear, keep your stride
Never mind your fears, brighter days will soon be here
Take it from me, someday we'll all be free
Keep on walking tall, hold your head up high.
Lay your dreams right up to the sky.
Sing your greatest song, and you'll keep going on, going on.
Take it from me, someday we'll all be free
Just wait and see, someday we'll all be free
Take it from me, someday we'll all be free
It won't be long...
Simples, mas sincera. Cheers!
aproveitando as good vibes, vou postar a letra de uma música aqui em homenagem a uma pessoa muito peculiar e querida.
ah, antes quero dizer que é de fato impressionante o número de pessoas peculiares e queridas que já conheci na vida. é um privilégio e agradeço todos os dias. não falo por falar. se juntar todas essas pessoas, diga-se que eu amo um ser mais-do-que-extraordinário. obrigada, queridos, por fazerem parte desse gigante de amor no meu coração.
agora chega de rasgação de seda.
com a palavra, mr. donny hathaway:
Someday We'll All Be Free
Hang on to the world as it spins around
Just don't let the spin get you down
Things are moving fast, Hold on tight and you will last
Keep your self respect, your manly pride
Get yourself in gear, keep your stride
Never mind your fears, brighter days will soon be here
Take it from me, someday we'll all be free
Keep on walking tall, hold your head up high.
Lay your dreams right up to the sky.
Sing your greatest song, and you'll keep going on, going on.
Take it from me, someday we'll all be free
Just wait and see, someday we'll all be free
Take it from me, someday we'll all be free
It won't be long...
Simples, mas sincera. Cheers!
give me plenty of that guitar
uma das coisas de que mais tenho ternura na vida é o começo de "any road", do george harrison, em que se pode escutá-lo fazer esse singelo pedido.
=)
=)
sexta-feira, 24 de março de 2006
the male is basically an anymale
o discurso amoroso é feminino e o científico é masculino. a percepção do conhecimento foi construída, no ocidente, de acordo com o crescimento da sociedade patriarcal. é triste e atrasado o fato de que as mulheres, para produzir conhecimento, em geral precisam travestir seu discurso como o de um homem. a ciência permite racionalização, constatação, experiência física; mas o ser humano é feito apenas disso? por que separar o homem e a ciência se é praticamente fato dado que, ao sermos o observador, modificamos o objeto? o ser humano não é apenas homem. e a mulher é condutora principal de outras instâncias desse ser: a emoção, a espiritualidade, a intuição/sensação. o discurso da ciência pode se beneficiar muito disso ao incorporar o que falta de humanidade em sua estrutura, pode ser mais perceptivo e, assim, abrir caminho para muito mais respostas. o discurso amoroso pode se beneficiar do masculino ao incorporar o prático, o resiliente, o racional e, assim, não padecer de tanta insegurança, expectativa, fantasia. o homem não deve precisar travestir seu discurso para ter paz junto a uma mulher.
recapitulando: intuição não é expectativa, emoção não é insegurança e espiritualidade não é fantasia.
vamos enriquecer as relações humanas e trazer o benefício do entremeio.
as comunidades pequenas, onde se vê maior proximidade entre as pessoas, são faróis de humanidade e sustentabilidade, mesmo que de luz fraquinha, ainda. quem está próximo, se preocupa. questões tendem a ser superadas em conjunto. existe um pouco menos de desigualdade de oportunidade e de iniciativa para homens e mulheres. acho que deveríamos aproximar as telas, aproximar os olhos.
quem está acostumado a me ver falando coisas ruins sobre a postura feminina nos relacionamentos, entenda que realmente preciso mudar meu modo de dizer, mas que há algo em que realmente acredito por trás do falatório... ambos os lados não souberam olhar um para o outro e criar sua dialética. viva a diferença, mas viva ainda mais o diálogo entre as diferenças.
recapitulando: intuição não é expectativa, emoção não é insegurança e espiritualidade não é fantasia.
vamos enriquecer as relações humanas e trazer o benefício do entremeio.
as comunidades pequenas, onde se vê maior proximidade entre as pessoas, são faróis de humanidade e sustentabilidade, mesmo que de luz fraquinha, ainda. quem está próximo, se preocupa. questões tendem a ser superadas em conjunto. existe um pouco menos de desigualdade de oportunidade e de iniciativa para homens e mulheres. acho que deveríamos aproximar as telas, aproximar os olhos.
quem está acostumado a me ver falando coisas ruins sobre a postura feminina nos relacionamentos, entenda que realmente preciso mudar meu modo de dizer, mas que há algo em que realmente acredito por trás do falatório... ambos os lados não souberam olhar um para o outro e criar sua dialética. viva a diferença, mas viva ainda mais o diálogo entre as diferenças.
sexta-feira, 17 de março de 2006
este post resiliente
ano passado fiz duas revisões para o iphan, de revistas do patrimônio. a primeira foi sobre museus e a segunda sobre biodiversidade e patrimônio imaterial.
a revista de museus já havia sido revisada por três pessoas com idades variadas, acima dos quarenta anos possivelmente. mas, infelizmente, foi muito mal-feita, e precisei de muito tempo para terminar esse trabalho. foi uma segunda revisão que deve ter salvado o texto. sem falsa modéstia, pois é apenas uma coisa quase mecânica.
mas o fato é que a revista saiu e meu nome não está nela. constam os nomes dos três e só...
poxa, fiquei muito triste. eles são pessoas estabelecidas na vida, e eu estou construindo minha carreira e mal comecei. preciso muito disso.
acho que o erro foi ter feito esse trabalho com o intermédio da minha mãe, que trabalha no departamento de promoção do iphan. de forma inconsciente, creio eu, devem ter-me levado menos a sério por ser filha dela, vários me conhecem desde pequena. assim, vou mandar um email pra lá polidamente pedindo para que publiquem uma errata na próxima edição, dizendo que a revisão final foi feita por mim. sem contar que revisei sozinha essa edição. precisa dizer algo mais?
a revista de museus já havia sido revisada por três pessoas com idades variadas, acima dos quarenta anos possivelmente. mas, infelizmente, foi muito mal-feita, e precisei de muito tempo para terminar esse trabalho. foi uma segunda revisão que deve ter salvado o texto. sem falsa modéstia, pois é apenas uma coisa quase mecânica.
mas o fato é que a revista saiu e meu nome não está nela. constam os nomes dos três e só...
poxa, fiquei muito triste. eles são pessoas estabelecidas na vida, e eu estou construindo minha carreira e mal comecei. preciso muito disso.
acho que o erro foi ter feito esse trabalho com o intermédio da minha mãe, que trabalha no departamento de promoção do iphan. de forma inconsciente, creio eu, devem ter-me levado menos a sério por ser filha dela, vários me conhecem desde pequena. assim, vou mandar um email pra lá polidamente pedindo para que publiquem uma errata na próxima edição, dizendo que a revisão final foi feita por mim. sem contar que revisei sozinha essa edição. precisa dizer algo mais?
sexta-feira, 10 de março de 2006
the walk of life*
hoje pensei que não preciso mais sentir culpa por às vezes curtir mesmo uma fossa.
acho que, em alguma idade após os 18, sempre que me sentia triste e confortável, também ficava envergonhada por repetir, teoricamente, um mecanismo típico adolescente.
mas era diferente... servia para fins de revolta, falta de fins mesmo, pra berrar. e, assim, continuar parada e a praticar a negligência enquanto tudo despenca.
e foi assim que percebi que, agora, estimo muito essa falta de palpite que dá às vezes porque ela faz crescer, porque aprendi a condicionar esses momentos a uma reação quase imediata de resolver, de superar, de deixar sentir para que passe no tempo certo.
* a celebrar o retorno das peripatéticas
acho que, em alguma idade após os 18, sempre que me sentia triste e confortável, também ficava envergonhada por repetir, teoricamente, um mecanismo típico adolescente.
mas era diferente... servia para fins de revolta, falta de fins mesmo, pra berrar. e, assim, continuar parada e a praticar a negligência enquanto tudo despenca.
e foi assim que percebi que, agora, estimo muito essa falta de palpite que dá às vezes porque ela faz crescer, porque aprendi a condicionar esses momentos a uma reação quase imediata de resolver, de superar, de deixar sentir para que passe no tempo certo.
* a celebrar o retorno das peripatéticas
segunda-feira, 6 de março de 2006
a maioria das pessoas nunca encontra o amor
encontra chão de cinza e confunde
encontra progressões nas aberturas
as pessoas não sabem onde fica o claustro
não encontram o território das confluências
não entendem, perdem o tato e o floema
o puído do cordato, o aberto, o vazio
pisam as veias que se entremeiam e então
se perdem do foco e manipulam simulacro
encontra progressões nas aberturas
as pessoas não sabem onde fica o claustro
não encontram o território das confluências
não entendem, perdem o tato e o floema
o puído do cordato, o aberto, o vazio
pisam as veias que se entremeiam e então
se perdem do foco e manipulam simulacro
digamos que gosto pouco
Já experimentou dizer a alguém que "não gosta muito" de alguma coisa, por exemplo, de pintura ou de Strokes? Com certeza ouviu ou ouvirá a pessoa dizer o seguinte, em outra ocasião: "ei, era você que não gostava de pintura, né?"
Mas veja bem, você gosta sim, de pintura e de Strokes, não tem críticas ferozes a fazer, só não ama.
A negativa é o que fica marcado na memória.
Vamos fazer assim: quando a gente não for lá muito fã de algo, melhor evitar o "não". Melhor dizer "gosto um pouco de andar de bicicleta".
É um jeito de poupar explicações.
Mas veja bem, você gosta sim, de pintura e de Strokes, não tem críticas ferozes a fazer, só não ama.
A negativa é o que fica marcado na memória.
Vamos fazer assim: quando a gente não for lá muito fã de algo, melhor evitar o "não". Melhor dizer "gosto um pouco de andar de bicicleta".
É um jeito de poupar explicações.
domingo, 26 de fevereiro de 2006
O amor aparece fora do discurso, fora de esquadro. É célebre. As celebridades sofrem com o que se diz sobre elas, o que vira uma espécie de verdade e a verdade aparente é praticada. Pratica-se o discurso, mas não o amor. Ele aparece fora mesmo quando está dentro, destaca-se por sua fama, incomoda ou atrai em grande medida.
E se diz dele o que se quer acreditar. O que se quer é alimento. E pratica-se todos os dias o banquete, nas telas, nas páginas, nas embalagens e em edifícios. Nas listas e enquetes, perfis e álbuns. Identifica-se, corrobora-se, projeção: alimento ainda. Contrato de dois egos, ferramenta de segurança, meu meu meu!
Começar com o desejo, só. De admirar a diferença, segurar-se em vários instrumentos, inclui o de si. Compreender, pela calma, que ansiedades são para todos, que o outro é essencialmente diverso e que fez uma escolha. Ser parceiro não é coerção, sentir-se agradecido pela convergência de vontades. Ensinar, aprender e desligar-se do discurso. Deixar-se ouvir palavras outras além ou ao invés do que se habituou necessitar ouvir. O amor pode querer ser reconhecido no discurso dos gestos, do laico e na falta de intenção. Pode estar no momento desagradável de ouvir uma contra-expectativa. É, ao que parece, sempre forte, mesmo que simples. E não participa de ódio e de posse. Pode ser entremeado por seu impostor, o discurso apaixonado, mas quer prevalecer pela força natural e pacífica, lenta e calma, quer aparecer o tempo todo.
Acho.
E se diz dele o que se quer acreditar. O que se quer é alimento. E pratica-se todos os dias o banquete, nas telas, nas páginas, nas embalagens e em edifícios. Nas listas e enquetes, perfis e álbuns. Identifica-se, corrobora-se, projeção: alimento ainda. Contrato de dois egos, ferramenta de segurança, meu meu meu!
Começar com o desejo, só. De admirar a diferença, segurar-se em vários instrumentos, inclui o de si. Compreender, pela calma, que ansiedades são para todos, que o outro é essencialmente diverso e que fez uma escolha. Ser parceiro não é coerção, sentir-se agradecido pela convergência de vontades. Ensinar, aprender e desligar-se do discurso. Deixar-se ouvir palavras outras além ou ao invés do que se habituou necessitar ouvir. O amor pode querer ser reconhecido no discurso dos gestos, do laico e na falta de intenção. Pode estar no momento desagradável de ouvir uma contra-expectativa. É, ao que parece, sempre forte, mesmo que simples. E não participa de ódio e de posse. Pode ser entremeado por seu impostor, o discurso apaixonado, mas quer prevalecer pela força natural e pacífica, lenta e calma, quer aparecer o tempo todo.
Acho.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006
a falta que faz
o orkut?
mais ou menos. não o orkut, mas acho legal o sistema da amazon.com
você pode ter amigos na lista também, pode criar várias listas de coisas legais (os famosos tops 10) e ficar sonhando com o consumo de coisas honoráveis ou não.
quem quiser me adicionar, é só me procurar pelo nome Maíra Mendes.
mais ou menos. não o orkut, mas acho legal o sistema da amazon.com
você pode ter amigos na lista também, pode criar várias listas de coisas legais (os famosos tops 10) e ficar sonhando com o consumo de coisas honoráveis ou não.
quem quiser me adicionar, é só me procurar pelo nome Maíra Mendes.
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006
"Percorrer. Era um caminho, e deveria conter as medidas dos passos de Lucindo, já que era sua face voltada para os possíveis fins. Enquanto se via direcionado pelo olhar, anoitecia a leveza da paisagem. Anoitecia em pensamento, em vista, em frente; era noite também numa certa rua tão distante quanto poderia ser. Onde se vêem ruas também está o negativo direto, uma visão de rochas e gelo que é passagem para algo, coisa parecida, por que não. E ele, agora, no topo da claridade permitida, deu, enfim, o primeiro passo. Poderia crescer o quanto quisesse, era sua prerrogativa de sonhador. Até que acordasse, poderia pisar um pico de cada vez, sem que destruísse o que de mais agudo lhe saltava aos olhos. Estabilizar-se não era menos do que uma simplicidade. Seu caminhar desenrolava-se, ritmo de precisão. O acompanhamento do passo era o lento possível na paz expressa pelo corpo não perturbado.
Noite após dia após noite: Lucindo esforça-se para voltar ao caminho que lhe desafia pela dureza e que parece poder ser domado pela maleabilidade da condição desse encontro. É o sonhar protagonizado, tomado até, pelo sonhador. Ele carrega o peso do maciço que será completado com um fechar de olhos. Sente-se Atlas, também pela perspectiva, por ser mirador artífice.
De volta aos ponteiros sem tributo, ele apanha estilhaços de sonhadores prévios, todos os Lucindos que lhe foram precursores. Os futuros Lucindos precursores de pretéritos sonhadores também enfeitiçados. O tempo do sonhar tem correspondência sem fins, não traduz praticidade, não representa. Fechados os olhos, abertas as portas para o mundo de branco e entremeios escuros. Nas margens desse mundo está a escuridão, a parte de trás da tela. Lucindo interessa-se apenas pelos caminhos adiante, são idênticos em intenções ao que veio antes, e ele avança. Hoje, não vai pelos picos. Abriu-se uma estrada em que se anda sem tirar os pés, uma vaga para se praticar o deslize, pegar retornos, empreender retomadas.
•••
Enquanto em vidas no ar passam caminhos sem viajantes, nas vidas de matéria passam apenas os que viajam; caminhos, não os há. E, nesse percurso tão forjado por cabeças milhares a ferver noite após noite, existem os rompimentos. Os furos aqueles, os que lhe espiam diretamente entre as palavras, os que sintetizam lugares no centro de Lucindo. Que os apreende, em seu ritmo. Em seu escuro, claro, passo, fenda. Os afetos que são estacas, migalhas no escuro, claros no passo, fenda em negativo. Mixórdias em afagos que se entretecem que se desfazem um primeiro, outro depois, até o mais alto. As pontas forjadas por nenhum aparente, fecundadas por probabilidades, interferência chega na forma de Lucindo e determina curso, cor, velocidade, sabor, forma e posição.
É você, olhe para mim. Estou nestas frases, minimamente, mas grande em cada migalha de papel impresso, enorme no fundo da folha e incomensurável no espaço entre os seus olhos e o livro. Muito prazer. Ou desejo mesmo, fetiche, enfim, posso ser o discurso do que se aspira, mas nunca realizo. Ando sempre a tangenciar as bordas do seu desejo, Lucindo. E assim você me persegue. Noite adentro e dia afora, quando aumenta o ponto de contato. Mas o que você não sabe é quem determina. É você. Eu aponto, mesmo forte posso receber descaso. Mas você me segue, neste momento, posso te conduzir ainda um tanto. Não houve ruptura, espere. Não, aconteceu apenas um reconhecimento do encontro. Senti por bem dirigir-me a você, já que lhe levava pelos olhos e espírito a percorrer minha cadeia. E nela você deixou seus vestígios. Achei por bem, sim, lhe dizer que sou corpóreo. Por mais opaco que lhe pareça, não exatamente lhe aparecia. É evidente."
Trecho de livro anônimo.
Noite após dia após noite: Lucindo esforça-se para voltar ao caminho que lhe desafia pela dureza e que parece poder ser domado pela maleabilidade da condição desse encontro. É o sonhar protagonizado, tomado até, pelo sonhador. Ele carrega o peso do maciço que será completado com um fechar de olhos. Sente-se Atlas, também pela perspectiva, por ser mirador artífice.
De volta aos ponteiros sem tributo, ele apanha estilhaços de sonhadores prévios, todos os Lucindos que lhe foram precursores. Os futuros Lucindos precursores de pretéritos sonhadores também enfeitiçados. O tempo do sonhar tem correspondência sem fins, não traduz praticidade, não representa. Fechados os olhos, abertas as portas para o mundo de branco e entremeios escuros. Nas margens desse mundo está a escuridão, a parte de trás da tela. Lucindo interessa-se apenas pelos caminhos adiante, são idênticos em intenções ao que veio antes, e ele avança. Hoje, não vai pelos picos. Abriu-se uma estrada em que se anda sem tirar os pés, uma vaga para se praticar o deslize, pegar retornos, empreender retomadas.
•••
Enquanto em vidas no ar passam caminhos sem viajantes, nas vidas de matéria passam apenas os que viajam; caminhos, não os há. E, nesse percurso tão forjado por cabeças milhares a ferver noite após noite, existem os rompimentos. Os furos aqueles, os que lhe espiam diretamente entre as palavras, os que sintetizam lugares no centro de Lucindo. Que os apreende, em seu ritmo. Em seu escuro, claro, passo, fenda. Os afetos que são estacas, migalhas no escuro, claros no passo, fenda em negativo. Mixórdias em afagos que se entretecem que se desfazem um primeiro, outro depois, até o mais alto. As pontas forjadas por nenhum aparente, fecundadas por probabilidades, interferência chega na forma de Lucindo e determina curso, cor, velocidade, sabor, forma e posição.
É você, olhe para mim. Estou nestas frases, minimamente, mas grande em cada migalha de papel impresso, enorme no fundo da folha e incomensurável no espaço entre os seus olhos e o livro. Muito prazer. Ou desejo mesmo, fetiche, enfim, posso ser o discurso do que se aspira, mas nunca realizo. Ando sempre a tangenciar as bordas do seu desejo, Lucindo. E assim você me persegue. Noite adentro e dia afora, quando aumenta o ponto de contato. Mas o que você não sabe é quem determina. É você. Eu aponto, mesmo forte posso receber descaso. Mas você me segue, neste momento, posso te conduzir ainda um tanto. Não houve ruptura, espere. Não, aconteceu apenas um reconhecimento do encontro. Senti por bem dirigir-me a você, já que lhe levava pelos olhos e espírito a percorrer minha cadeia. E nela você deixou seus vestígios. Achei por bem, sim, lhe dizer que sou corpóreo. Por mais opaco que lhe pareça, não exatamente lhe aparecia. É evidente."
Trecho de livro anônimo.
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006
segunda-feira, 30 de janeiro de 2006
luta para acreditar ou descreditar
olá amigos... alguns comentários me lembraram que tenho este blog. precisava postar algo!
não tem como este não ser um daqueles posts pessoais.
pra quem me conhece há anos e para aqueles que nem me conhecem, mas são curiosos com as gentes.
passei a vida toda (o que pra mim são 25 anos) sem saber responder a pergunta "de que você mais gosta? " ou "o que quer fazer por toda a vida?", mas sempre com uma direção razoavelmente específica. que era o campo das humanas... começava com literatura, filosofia, música e às vezes conseguia virar pros lados da história, da política, das logias... isso era fato dado! era com isso que eu contava para ser alguma coisa bem multidisciplinar, mas de fato ligada a tudo de mais abstrato, construído pela mente e pela estética, por especulações tipicamente humanas sobre si e seu modo de perguntar, de desvincular o que cria do mundo referencial. MAS AÍ não sei o que aconteceu direito. só sei um pouco... é que agora tenho tanta preguiça, mas tanta. todo o investimento feito em livros de crítica literária, para chegar a sentir um certo repúdio mesmo. não é que inteligência seja ruim, é que informação pela informação passou a incomodar. afastar o mundo fez mal. parece..
e agora voltei a ler sobre física e cosmologia. ou sobre os seres vivos e seus arranjos de vida na terra, até mesmo a gente. ou, ainda, mais importante do que tudo isso: comecei a entrar em contato com isso tudo. visitar o mundo, dar a mão e cumprimentar os sapos, as lagartas e os inclassificáveis. pisar a terra, o capim, o cascalho, empurrar muito ar pra dentro, soltar agradecida. acho que essa parte até já fazia, mas agora é tão mais próximo. acho que antes havia algo sempre literário no contato que tinha com o mundo. até me agradava mais quando havia uma janela, ou uma tela. até viajava pouco e nem sentia falta.
e foi assim que passei a gostar das ciências exatas e naturais, mas só de raspão, por tenho desconfiança de que o que gosto mesmo é da natureza em si. preciso ficar atenta para não radicalizar, não virar bicho do mato completo, mas ai ai.. que saudade de uma bosta de vaca.
e tudo junto, veio também a vontade de usar o corpo, a consciência de que existe para servir um propósito e ser bem cuidado. e veio mais e mais avassaladoramente a vontade de tratar bem os que me são parecidos, que têm também corpo e propósitos, ser cordial. ser leve com tudo e todos, compreender a luta para acreditar nas mudanças por que a gente passa.
esse é o porquê do título deste post: quando a gente muda e conta pros outros, eles dificilmente acreditam mesmo. e agora eu conto pra mim e estou achando bem difícil de acreditar, também. mas como não sou pessimista e estou largando a parte cri cri para lá, prefiro lutar para acreditar do que para descreditar. o descrédito é filhinho do orgulho, não é uma boa! vou viver para crer, se estiver errada, começa-se tudo de novo. mas, provavelmente, passinho à frente.
feliz 2006 a todos e declaro aberto o novo ano letivo deste blog!
não tem como este não ser um daqueles posts pessoais.
pra quem me conhece há anos e para aqueles que nem me conhecem, mas são curiosos com as gentes.
passei a vida toda (o que pra mim são 25 anos) sem saber responder a pergunta "de que você mais gosta? " ou "o que quer fazer por toda a vida?", mas sempre com uma direção razoavelmente específica. que era o campo das humanas... começava com literatura, filosofia, música e às vezes conseguia virar pros lados da história, da política, das logias... isso era fato dado! era com isso que eu contava para ser alguma coisa bem multidisciplinar, mas de fato ligada a tudo de mais abstrato, construído pela mente e pela estética, por especulações tipicamente humanas sobre si e seu modo de perguntar, de desvincular o que cria do mundo referencial. MAS AÍ não sei o que aconteceu direito. só sei um pouco... é que agora tenho tanta preguiça, mas tanta. todo o investimento feito em livros de crítica literária, para chegar a sentir um certo repúdio mesmo. não é que inteligência seja ruim, é que informação pela informação passou a incomodar. afastar o mundo fez mal. parece..
e agora voltei a ler sobre física e cosmologia. ou sobre os seres vivos e seus arranjos de vida na terra, até mesmo a gente. ou, ainda, mais importante do que tudo isso: comecei a entrar em contato com isso tudo. visitar o mundo, dar a mão e cumprimentar os sapos, as lagartas e os inclassificáveis. pisar a terra, o capim, o cascalho, empurrar muito ar pra dentro, soltar agradecida. acho que essa parte até já fazia, mas agora é tão mais próximo. acho que antes havia algo sempre literário no contato que tinha com o mundo. até me agradava mais quando havia uma janela, ou uma tela. até viajava pouco e nem sentia falta.
e foi assim que passei a gostar das ciências exatas e naturais, mas só de raspão, por tenho desconfiança de que o que gosto mesmo é da natureza em si. preciso ficar atenta para não radicalizar, não virar bicho do mato completo, mas ai ai.. que saudade de uma bosta de vaca.
e tudo junto, veio também a vontade de usar o corpo, a consciência de que existe para servir um propósito e ser bem cuidado. e veio mais e mais avassaladoramente a vontade de tratar bem os que me são parecidos, que têm também corpo e propósitos, ser cordial. ser leve com tudo e todos, compreender a luta para acreditar nas mudanças por que a gente passa.
esse é o porquê do título deste post: quando a gente muda e conta pros outros, eles dificilmente acreditam mesmo. e agora eu conto pra mim e estou achando bem difícil de acreditar, também. mas como não sou pessimista e estou largando a parte cri cri para lá, prefiro lutar para acreditar do que para descreditar. o descrédito é filhinho do orgulho, não é uma boa! vou viver para crer, se estiver errada, começa-se tudo de novo. mas, provavelmente, passinho à frente.
feliz 2006 a todos e declaro aberto o novo ano letivo deste blog!
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